Manifestações, micaretações, os manifestantes mais-amor e os nacionalistas

As manifestações contra o aumento das passagens organizadas pelo MPL começaram este ano em 06 de junho. Até o momento, dia 20 de junho, foram realizadas 6 manifestações o outra está marcada para hoje às 17:00 horas. Os quatro primeiros atos contaram com um número de participantes entre cinco mil no dia 06, e pouco mais de dez mil no dia 13. Os quinto e sexto atos, ocorridos nos dias 17 e 18 tiveram uma participação muito maior, com estimativas dando conta de mais de 100 mil pessoas. O que haveria mudado para que em quatro dias uma multidão que não está acostumada a participar de manifestações resolvesse passar a participar? Poderíamos dizer que o gigante acordou, mas isso não é explicação, é imagem da propaganda de uísque.

Os primeiros atos foram todos marcados por confrontos entre policiais e manifestantes. O ato do dia 13, já começou com um 'clima' de escaramuça devido aos conflitos ocorridos no ato anterior, o maior até então, resultando em manifestantes presos e policiais feridos. As estratégias do governo do estado e da prefeitura eram a mesma, a mesma de sempre: vamos aumentar as passagens; vão reclamar; limpamos a bagunça e fim de papo. Mas no dia 13 o comando deixou a tropa solta demais, e o resultado foram mais confrontos e dessa vez com imagens muito ruins, com transeuntes e imprensa sendo feridos. Uma matilha solta e umas manchetes ruins fizeram o comando da polícia repensar suas táticas. Foram obrigados a segurar a tropa, e com isso uma nova maneira de limpar a bagunça deveria ser encontrada.

Já o Movimento Passe Livre estava numa curva crescente, com cada vez mais mobilização em suas manifestações de 2013. Com a repercussão da manifestação do dia 13, soube muito bem como canalizar a 'publicidade favorável' em direção ao seu próximo ato, no dia 17, que seria o primeiro que teria uma micaretação com manifestantes mais-amor

A definição de micaretação é uma aglomeração de pessoas, que vão se manifestar politicamente, mas que no final das contas, estão mais interessadas em participar do ato em si, participar da festa, postar fotos na internet e coisas assim. O objetivo pode ser qualquer coisa: do caos instaurado no transporte coletivo à falta de amor em São Paulo passando pelo alto custo dos jogos de PS3. Na verdade, quem liga? Já o manifestante mais-amor, é o típico componente de uma micaretação. Ele fica bravo na internet, reclama dos políticos, do povo, do mundo todo e ultimamente estava meio entediado e andou vendo umas notícias de uns lugares lá longe e ficou com vontade de também ter sua própria manifestação-revolução (manifestação pacifico-revolucionaria-show-de-civilidade, claro).

Aqui entram os nacionalistas. Eles também estão buscando seus espaços e tentando espalhar suas ideias. E as mensagens deles são as mais palatáveis para o manifestante mais-amor. Eles falam sobre amor ao Brasil, volta da ordem e afins, e esse é um discurso muito difundido, o mais-amor já ouviu isso muitas vezes, quando ouve isso na sua micaretação, se encontra.

Com todos estes ingredientes, chegamos à manifestação do dia 17, onde houve a “mistura” de tudo isso: a crescente do movimento pela redução das passagens encabeçado pelo MPL, os manifestantes mais-amor empolgados com as histórias da internet e com toda a publicidade positiva veiculada nos meios de comunicação durante o fim de semana, e os nacionalistas e a direita em geral. O resultado foi uma manifestação realmente massiva, com a presença de dezenas de milhares de pessoas, mas por outro lado foi também uma manifestação desfocada, com a direita querendo impor sua própria agenda, despolitizada, com a maioria dos manifestantes sendo do tipo mais-amor, também tentando impor sua “agenda” despolitizada e com alguma ação radicalizada por parte dos manifestantes que se dirigiram ao palácio dos bandeirantes. A manifestação do dia 18 foi mais ou menos como está, mas as ações radicalizadas se dirigindo à sede da prefeitura. No dia 19, a prefeitura e o governo do estado anunciaram a revisão do aumento das tarifas do transporte nos ônibus, trens e metrô de São Paulo.

À primeira vista, temos uma vitória do movimento. E temos mesmo, a reivindicação inicial foi atendida, o preço das passagens baixou. Mas não custa olhar mais de perto. Primeiro: qual foi o papel da multidão de manifestantes mais-amor presentes nas duas últimas manifestações? Ele foi um papel decisivo, ou seja, uma participação sem a qual não haveria a conquista da reivindicação inicial? Neste ponto podemos olhar para os exemplos de outras cidades do país que tiveram o valor da tarifa do transporte reduzido por conta das manifestações. E nestas cidades não se viu toda essa “mobilização popular”, donde se conclui que este papel, seja ele qual for, não foi decisivo na obtenção do resultado obtido até agora.

Começa-se a vislumbrar o papel exercido pela massa de manifestantes mais-amor ao pensar-se em qual estratégia de contensão de danos poderia ser usada pelo governo do estado. Depois do dia 13, com a tropa na coleira, uma tática mais sutil teria que ser usada para “esvaziar” o movimento. Se você não pode bater e assustar para as pessoas não irem, nada melhor do que inflar em número e esvaziar no conteúdo político direto da manifestação. E assim foi feito, com a anuência dos meios de comunicação (desde que a classe que controla os meios de comunicação é a mesma que detém o controle do estado). Mas então, por que a tarifa foi reduzida? Porque a estratégia do governo do estado não foi tão bem sucedida. A manifestação realmente foi muito aumentada em número, na maioria dos casos, por manifestantes mais-amor, mas uma parcela dos manifestantes ainda continuou com o objetivo inicial, levando ao cabo protestos mais radicais e efetivos. Com isso, a tarifa teve que ser baixada.

Agora, sobram os questionamentos de qual será a herança e a continuação disto tudo. Aos militantes do MPL, cabe a tarefa de tentar fazer dos limões uma limonada, ou seja, conseguir canalizar pelo menos uma parte do apoio conquistado nos últimos dias para a questão central do MPL, que é o passe livre no transporte coletivo. À pessoas como eu, que estão de fora, cabe analisar como foi o funcionamento desta “manifestação espontânea” assim como analisar o papel da direita, principalmente dos nacionalistas, e em como eles tentarão captar o apoio popular.

Manifestações espontâneas, sem direção e coisas do tipo têm sua serventia e seu valor, mas também sofrem por serem muito fáceis de serem tomadas por elementos externos (no caso atual, nacionalistas e fascistas). E como os símbolos nacionalistas e as ideias fascistas são as ideias correntes, elas são muito facilmente assimiladas pelas massas. E aí reside um problema sério a ser enfrentado. A ascensão fascista na Europa no século XX teve como base, muitas vezes, o apoio popular, conseguido dessa maneira, com elementos fascistas se infiltrando em movimentos populares e cooptando os participantes menos conscienciosos com seus discursos de fácil assimilação. Percebendo-se disso, é preciso enfrentar esses problemas em todos os aspectos possíveis, desde o aspecto ideológico até o enfrentamento nas ruas e a quebra da ordem estabelecida. Os fascistas são bons nisso, os antifascistas precisam ser mais fortes e organizados que eles, ou fatalmente serão derrotados.

ATUALIZAÇÃO EM 21/06

O que era apenas uma probabilidade, agora está confirmada. Os fascistas conseguiram galgar seus espaços dentre os manifestantes mais-amor. Tanto é que a primeira linha da matilha fascista, os carecas e skin heads, estavam presentes ao ato, muito à vontade. E como esperado, os seus slogans nacionalistas caíram nas graças da massa. Agora já podemos dizer que o resquício destes atos, além da redução da tarifa dos transportes, foi, pelo menos em São Paulo, um maior contato e uma assimilação – talvez inadvertidamente – dos símbolos fascistas por parte da massa de manifestantes, os manifestantes mais-amor.

Agora o problema é muito maior, tem que se lutar para desconstruir estes símbolos fascistas no imaginário coletivo, ou o apoio aos fascistas, entre a população geral, pode aumentar. E temos exemplos de como isto termina.

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